Olímpia-SP, Sexta-Feira, 30 de Outubro de 2020

Mulher

Como combater a cultura do estupro e desconstruir a culpabilização da vítima

A luta para que os princípios da sociedade sejam justos, com igualdade de gênero e respeito às diferenças deve ser de todos, homens e mulheres

 

 

 

 

A cada 11 minutos, em média, uma mulher é estuprada no Brasil, sendo que este é um dos crimes mais subnotificados que existem atualmente. Jovens entre os 16 e 24 anos são as que mais sentem medo desse tipo de violência; estima-se, ainda, que 50,7% dos casos sejam cometidos com menores de treze anos. Os dados chocantes representam a realidade cotidiana para o sexo feminino – e, embora possam parecer surpreendentes aos olhos de quem tem conhecimento deles pela primeira vez, são CONSEQUÊNCIAS CLARAS DA CULTURA DO ESTUPRO, BASEADAS NUM MODELO DE VALORES MACHISTAS E PATRIARCAIS, cujas causas estruturais precisam ser reveladas e combatidas cotidianamente.

A brutalidade ocorrida recentemente com a adolescente no Rio de Janeiro mostra que é necessário um esforço conjunto de toda a sociedade para que os princípios que levam a esse tipo de comportamento sejam exterminados de uma vez por todas do pensamento coletivo, e da criação e educação tanto das gerações atuais como das próximas que virão. O TRABALHO DE DESCONSTRUÇÃO DE TAIS PRÁTICAS EXIGE MUDANÇAS DE ATITUDES DRÁSTICAS, para que momentos de dor e tristeza como os aqui relatados não voltem a se repetir.

 

 

 

 

A VÍTIMA NÃO É CULPADA

 

“A CULTURA DO ESTUPRO SE CONSTITUI DA NATURALIZAÇÃO DA AGRESSIVIDADE DO HOMEM E A CULPABILIZAÇÃO DA VÍTIMA por aquilo que lhe acontece. É quando a gente vai encontrar na vida dela indícios que fizeram com que ela quase merecesse o que sofreu”, coloca Viviana Santiago, especialista de gênero da Plan Internacional Brasil, uma organização não-governamental de origem inglesa voltada para a defesa dos direitos da infância, conforme expressos na Convenção dos Direitos da Criança, da Organização das Nações Unidas. “E algumas pessoas vão dizer que mereceu!”, ela se indigna. O ESTUPRO NÃO É ALGO QUE SE JUSTIFICA; os julgamentos com relação à roupa que a vítima usava, o horário que ela saiu de casa e o motivo para isso, assim como quaisquer tipos de modos que só dizem respeito a ela, retiram o foco do estuprador.

 

A CONDUTA MACHISTA NÃO PODE SER VISTA COMO NATURAL

 

 

 

 

“Se a gente constrói uma noção de que algumas pessoas vão passar por isso, então deixa de ser violência, porque é natural”, Viviana continua sua linha de raciocínio. Uma das conjunturas que leva a esse tipo de circunstância é, especialmente, o ASSÉDIO em constantes aspectos do dia a dia das mulheres, TRATADO COM ELOGIO por muitos e desqualificado do seu real significado. As “CANTADAS” NA RUA, no mundo virtual ou em qualquer ocasião são considerados agressivos, inconvenientes e constrangedores pela maioria daquelas que os recebem – ninguém tem que passar por isso, as formas femininas devem parar de serem vistas como disponíveis para “avaliação” alheia.

 

É NECESSÁRIO DAR FIM À OBJETIFICAÇÃO DA MULHER

 

A especialista cita o quanto, desde a infância, a MASCULINIDADE É PAUTADA EM CIMA DO USO LIVRE E “INTRÍNSECO” DO CORPO DAS MULHERES. Seja na pornografia e na maneira como ela é concebida, nas novelas, nos programas televisivos, nas propagandas, entre outros meios, os indivíduos costumam receber as informações de que há certa disponibilidade de tudo aquilo que esteja ligado a esse universo. A OBJETIFICAÇÃO REFLETIDA NA COMUNICAÇÃO e nos mais simples discursos das conversas de bares, por exemplo, edifica a ideia da inferioridade delas, como propriedades às quais é fácil se ter acesso, e da desumanização da existência como seres iguais aos outros.

 

O SEXO NÃO PODE SER IMPOSTO AOS MENINOS

 

 

 

 

“Quando a criança nem anda e já estamos dizendo que ele tem ‘tantas namoradas’”, comenta a especialista. Segundo ela, é comum de se “achar fofo” que os garotos tenham essa relação e sempre incentivá-los a continuarem desse jeito. “O SEXO É UMA IMPOSIÇÃO PARA A VIDA DOS MENINOS; eles precisam fazê-lo para serem homens”, reforça. “E ao mesmo tempo, o que a gente diz para as meninas? Que elas não podem ter sexo porque é feio; SE ELAS FOREM BOAS MOÇAS, VÃO SE PRESERVAR”, compara. “Eu costumo dizer que o preparo mental de quem ‘encoxa’ uma pessoa no trem e o de quem estupra uma mulher é o mesmo”. Viviana cita que o DESEJO DITO COMO IRREFREÁVEL DO HOMEM conduz à criação dos “monstros” que cometem as transgressões. A cultura do estupro é responsável pela multiplicação crescente deles. “Esses monstros são nossos! É DENTRO DAS RELAÇÕES SOCIAIS QUE ELES SÃO PRODUZIDOS”, ratifica.

 

É NECESSÁRIO LUTAR PARA DESCONSTRUIR A SISTEMATIZAÇÃO DOS GÊNEROS

 

“A gente vive numa SOCIEDADE EM QUE OS MENINOS SÃO MAIS IMPORTANTES QUE AS MENINAS”, a especialista introduz. “E A GENTE CONTINUA ESTUDANDO UMA HISTÓRIA SEM MULHERES. Em toda a nossa vida educacional, você não ouve falar delas”. Conforme esse entendimento, os garotos são os fortes e superiores, enquanto as garotinhas são frágeis, as boazinhas que nasceram com o dom e a disposição de cuidar. Esses conceitos, percebidos como certos e ideais, formam a subjetividade e a noção do que é cada indivíduo. “O CONCEITO DE GÊNERO NÃO É NATO. ELE É CONSTRUÍDO”.

 

 

 

 

A IMPUNIDADE TEM QUE ACABAR

 

O ESTUPRO NÃO SE VERIFICA SOMENTE ENTRE DESCONHECIDOS, e há que ser repudiado nas suas mais diversas manifestações. A certeza nutrida de que a vida de uma mulher vale muito pouco, e a impunidade notada quando se trata de um crime dessa natureza reforçam a prerrogativa. A abordagem machista muitas vezes observada por aqueles que seriam qualificados da lei para o serviço não contribui para aumentar o nível de denúncias levadas a cabo. Ainda no que diz respeito ao episódio na cidade carioca Viviana narra: “Eu acho que a menina foi muito cirúrgica quando disse: o delegado me culpou!”. O DESCRÉDITO DOS DEPOIMENTOS DAS VÍTIMAS acaba por deixar muitos AGRESSORES IMPUNES, soltos por aí, firmes com a possibilidade de prosseguirem com a postura criminosa.

 

O CONSENTIMENTO É A ORDEM

 

Viviana explicita o quanto o CONSENTIMENTO TEM PAPEL IMPORTANTE PARA UMA VIDA SEXUAL RESPONSÁVEL. “POUCAS PESSOAS EDUCAM OS SEUS FILHOS PARA O PROCESSO DO DIÁLOGO, para a sexualidade”, ela afirma. “Esse é o papel da família: fazer com que os meninos percebam as meninas como pessoas que precisam consentir, têm direito de acharem o que é bom ou não para elas mesmas, seres plenamente capazes”, reitera. A profissional inclusive menciona que, no trabalho que realiza na ONG, ouve histórias de muitas mulheres cuja iniciação no sexo foi autoritária pelo lado do parceiro. “E elas vão constatar ali que houve abuso. Quando AS NORMAS DA SOCIEDADE VÃO DIZENDO E DANDO PAPÉIS PARA AS PESSOAS, juntamente a outros aspectos, vão deixando-as mais perto ou mais longe da linha do abuso”, conclui.



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